O PROTESTANTISMO BRASILEIRO NO PERÍODO REPUBLICANO
Alderi Souza de Matos
1. Situação geral
1.1 A Proclamação da República
Em 1889, com a Proclamação da República, ocorreu a separação entre a Igreja e o Estado no Brasil, ou seja, a Igreja Católica deixou de ser a religião oficial do país e os protestantes brasileiros alcançaram a tão esperada liberdade de culto. Isto se deu através do Decreto nº 119-A, de 7 de janeiro de 1890, que declarou o seguinte:
Art. 1º – É proibido à autoridade federal, assim como à dos estados federados, expedir leis, regulamentos ou atos administrativos, estabelecendo alguma religião, ou vedando-a, e criar diferenças entre os habitantes do país, ou nos serviços sustentados à custa do orçamento, por motivo de crenças ou opiniões filosóficas ou religiosas.
Art. 2º – A todas as confissões religiosas pertence por igual a faculdade de exercerem o seu culto, regerem-se segundo a sua fé e não serem contrariadas nos atos particulares ou públicos que interessem ao exercício deste decreto.
Art. 3º – A liberdade aqui instituída abrange não só os indivíduos nos atos individuais, senão também as igrejas, associações e institutos em que se acharem agremiados, cabendo a todos o pleno direito de se constituírem e viverem coletivamente, segundo o seu credo e a sua disciplina, sem intervenção do poder público.
Art. 4º – Fica extinto o padroado com todas as suas instituições, recursos e prerrogativas. (...)
No ano seguinte, a Constituição de 1891 garantiu plenamente o livre exercício e propaganda da fé evangélica, bem como instituiu o casamento civil e a secularização dos cemitérios.
1.2 Conflitos
Os bispos católicos, através de várias cartas pastorais publicadas a partir de 1890, saudaram a Proclamação da República porque ela libertou a igreja da tutela e interferência do estado, que havia sido uma constante desde o início da colonização do Brasil. Ao mesmo tempo, os bispos deploraram a perda de status e influência da Igreja Católica, resultante da sua separação do Estado. Eles começaram a referir-se ao novo regime republicano como um governo ateu.
A Igreja Católica também empreendeu uma intensa campanha para recuperar os seus antigos privilégios e voltar a ocupar os espaços perdidos. Nesse esforço, a igreja mostrou-se muito agressiva contra os protestantes, acusando-os de serem inimigos da identidade e cultura católicas do Brasil e de estarem a serviço de interesses estrangeiros, principalmente norte-americanos. Os evangélicos se referiram a essas pressões com o termo “clericalismo”.
Ironicamente, após a instauração do regime republicano a ainda pequena comunidade protestante viu-se alvo de ataques e perseguições ainda maiores do que as ocorridas na época do Império. Foram comuns, nas primeiras décadas da República, as mais variadas manifestações de intolerância contra os evangélicos. As autoridades com freqüência protegiam-nos desses ataques, mas houve casos em que foram coniventes com os agressores.
Dois líderes destacaram-se nesse esforço de mobilização católica e antiprotestante: o sacerdote e conferencista Júlio Maria (que atuou no período 1890-1917) e especialmente D. Sebastião Leme da Silveira Cintra, que foi arcebispo de Olinda e Recife (1916-1921), bispo coadjutor do Rio de Janeiro (1921-1930) e cardeal arcebispo do Rio de Janeiro nos últimos anos da sua vida (1930-1942). Um dos principais instrumentos utilizados por D. Leme foi o movimento de intelectuais leigos denominado Centro D. Vital (1922-33), cujos primeiros líderes foram Jackson de Figueiredo e Alceu Amoroso Lima.
Em 1925, D. Leme propôs algumas emendas à Constituição visando o reconhecimento da Igreja Católica como a religião do Brasil e o ensino religioso nas escolas públicas. Essas emendas, apresentadas pelo deputado Plínio Marques, foram vigorosamente combatidas pelos protestantes e outros grupos, sendo finalmente rejeitadas. No governo de Getúlio Vargas, a Constituição de 1934 favoreceu amplamente o catolicismo, sem, contudo, oficializá-lo.
1.3 Mobilização protestante
Em 1846, havia sido criada na Inglaterra a Aliança Evangélica, uma frente unida contra o catolicismo. Esse movimento foi iniciado nos Estados Unidos em 1867. No Brasil, os problemas iniciais do período republicano levaram os protestantes a criar uma organização semelhante, cuja primeira reunião verificou-se em São Paulo em julho de 1903. Seu primeiro presidente foi o Rev. Hugh Clarence Tucker (metodista) e seu primeiro secretário, o pastor F. P. Soren (batista).
Em 1910, realizou-se em Edimburgo, na Escócia, a célebre Conferência Missionária Mundial. Essa conferência pretendia tratar dos problemas missionários relacionados com o “mundo não-cristão” e, portanto, excluiu a América Latina das suas considerações. As missões que trabalhavam na América Latina e as igrejas dessa região sentiram-se desprestigiadas com essa atitude, que parecia questionar a validade do trabalho missionário nesse continente e a legitimidade das suas igrejas evangélicas.
Um grupo de líderes missionários interessados na América Latina reuniu-se em Nova York em 1913 e criou o Comitê de Cooperação na América Latina, que patrocinou o igualmente famoso Congresso de Ação Cristã na América Latina, reunido no Panamá em 1916. O principal líder dessa iniciativa foi Robert Elliot Speer (1867-1947), secretário da Junta de Missões Estrangeiras da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos (PCUSA).
Ao congresso do Panamá compareceram alguns missionários que trabalhavam no Brasil e apenas três brasileiros natos: os pastores presbiterianos Álvaro Reis, Erasmo Braga e Eduardo Carlos Pereira. Esse congresso foi seguido por vários encontros regionais, o último dos quais realizou-se no Rio de Janeiro. Pouco depois, foi criada uma sucursal do CCAL, a Comissão Brasileira de Cooperação, que teve como secretário, de 1920 a 1932, o ilustre Rev. Erasmo de Carvalho Braga (1877-1932).
Sob a liderança de Erasmo Braga, a Comissão Brasileira de Cooperação tornou-se um eficiente centro de apoio e coordenação do trabalho evangélico no Brasil. A Comissão desenvolveu muitos projetos úteis nas áreas de educação religiosa, missões aos indígenas, educação teológica e produção de literatura. Apoiou a criação de empreendimentos cooperativos como a Missão Evangélica Caiuá e a Associação Evangélica Beneficente, ambos em 1928. Outra contribuição importante foi a defesa dos direitos dos protestantes junto às autoridades governamentais, diante das ameaças do “clericalismo”.
Após a morte de Erasmo Braga, a Comissão Brasileira de Cooperação uniu-se à Federação das Igrejas Evangélicas do Brasil e ao Conselho Nacional de Educação Religiosa para formar a Confederação Evangélica do Brasil (1934), que prestou relevantes serviços à comunidade evangélica brasileira por várias décadas.
1.4 Tensões internas
Em meados da década de 50, a CEB criou a Comissão de Igreja e Sociedade, depois denominada Setor de Responsabilidade Social da Igreja. Esse órgão promoveu vários encontros, um dos quais, a chamada Conferência do Nordeste, teve como tema “Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro”. Com o início do regime militar em 1964, a postura progressista da CEB gerou crescentes dificuldades no seu relacionamento com o governo e com os setores mais conservadores do protestantismo brasileiro, agora marcadamente diferente daquele das décadas de 1920 e 1930.
Outro problema dos anos 60 foi uma conseqüência do Concílio Vaticano II (1962-65). Inspirados pelas mudanças que estavam ocorrendo na Igreja Católica, muitas igrejas e pastores adotaram uma postura de aproximação e diálogo com os católicos, o assim chamado “ecumenismo”. Tornou-se comum na época a realização de cultos ecumênicos ou de cerimônias ecumênicas de casamento, que geraram inúmeras controvérsias e até mesmo processos eclesiásticos nas igrejas evangélicas.
Um importante promotor do ecumenismo foi o Conselho Mundial de Igrejas, cujo processo de organização teve início em 1938 e foi concluído em 1948, em Amsterdã. Nas suas primeiras décadas, filiaram-se ao mesmo as seguintes igrejas brasileiras: Metodista (1942), Luterana (1950), Episcopal (1965) e até mesmo uma igreja pentecostal, O Brasil Para Cristo (1968).
O ecumenismo foi interpretado por muitos como mais uma manifestação do liberalismo teológico, outro fator de tensão e divisões nas igrejas protestantes do Brasil. O liberalismo clássico havia surgido no hemisfério norte na segunda metade do século passado. Na década de 1920, houve nos Estados Unidos uma famosa e acirrada controvérsia que colocou em campos radicalmente opostos os liberais ou modernistas e os fundamentalistas.
Para complicar ainda mais um quadro já tão confuso, surgiu ainda outro movimento nos anos 60 que teve grandes repercussões nas igrejas evangélicas: o movimento carismático ou de renovação. À semelhança de outros movimentos vindos para o Brasil, esse também surgiu inicialmente nos Estados Unidos, quando tanto católicos quanto membros de igrejas protestantes tradicionais começaram a ter experiências carismáticas semelhantes às dos pentecostais do início do século 20. No Brasil, esse movimento dividiu algumas igrejas e causou o surgimento de novas denominações.
Nos anos 80 e 90, novos movimentos e ênfases teológicas continuaram a ser importados dos Estados Unidos e a causar grandes transformações na face do protestantismo brasileiro. Os exemplos mais importantes são o movimento do crescimento da igreja, a teologia da prosperidade e a batalha espiritual. Outras ênfases recentes são a confissão positiva, cura interior, maldição hereditária e o movimento G-12. Existem também modismos mais passageiros que têm tido diferentes graus de impacto no ambiente evangélico.
1.5 Situação atual
Neste início do século 21, o protestantismo brasileiro impressiona muito mais pela sua diversidade e complexidade do que por elementos comuns. De um lado, há uma imensa maioria de pentecostais clássicos e a contínua proliferação e crescimento de grupos neopentecostais. Do outro lado, temos as igrejas tradicionais ou históricas, que por sua vez se subdividem em dois grupos: progressistas e conservadores. Passemos ao estudo dos diferentes períodos dessa história.
2. Primeiro período (1889-1930)
Quando da Proclamação da República, as principais denominações históricas do protestantismo já estavam presentes no Brasil, a saber, congregacionais (1855), presbiterianos (1859), metodistas (1876), batistas (1881) e episcopais (1890). Além destes, havia as antigas igrejas resultantes da imigração, como anglicanos (1816) e luteranos (1824).
O protestantismo brasileiro era ainda muito pequeno em termos numéricos. A Igreja Presbiteriana do Brasil foi a maior denominação nas primeiras décadas da República. Em 1910, quando foi criada a Assembléia Geral da IPB, os números aproximados de membros comungantes eram os seguintes: IPB: 10 mil; metodistas: 6 mil; batistas: 5 mil; IPI: 5 mil; episcopais: mil.
Em 1930, o total de presbiterianos era 44.500; batistas: 40.500; metodistas: 15.500 e Assembléia de Deus: 13.500. As maiores denominações isoladas eram a Convenção Batista Brasileira, com 34 mil comungantes e a IPB, com 29 mil. O número total dos evangélicos comungantes era de 135 mil, que, somados aos não-comungantes, totalizavam 406 mil. Os dois grupos luteranos tinham 70 mil comungantes, que subiam para 236 mil com o acréscimo dos não-comungantes. A comunidade protestante do Brasil era calculada em 700 mil pessoas, em uma população total de 41 milhões de habitantes.
Outros grupos evangélicos existentes nessa época eram os seguintes: (a) igrejas: Irmãos, Igreja Cristã, Igreja Batista Independente, Exército da Salvação, Congregação Cristã no Brasil, Adventistas; (b) missões: União Evangélica Sul-Americana; (c) entidades interdenominacionais: Sociedade Bíblica Americana, Missão Evangélica Caiuá, Comissão Brasileira de Cooperação, Associação Cristã de Moços, Associação Cristã Feminina.
A principal característica desse período foi o processo de nacionalização dos diferentes grupos, que se tornaram mais autônomos em relação às suas igrejas de origem. Vejamos os dados das principais denominações históricas:
2.1 Igreja Congregacional
Foi a primeira denominação brasileira inteiramente nacional (não sujeita a nenhuma junta missionária). Até 1913, só foram organizadas treze igrejas congregacionais no Brasil, todas autônomas. Oito eram filhas da Igreja Fluminense: Pernambucana (1873), Passa Três (1897), Niterói (1899), Encantado (1903), Paranaguá, Paracambi e Santista (1912), Paulistana (1913), e três da Igreja Pernambucana: Vitória (1905), Jaboatão (1905) e Monte Alegre (1912). Em julho de 1913, essas igrejas se reuniram na 1ª Convenção Geral, no Rio de Janeiro. Dessa época até 1942, a denominação mudou de nome dez vezes.
Os ingleses fundaram algumas missões para atuar na América do Sul: Help for Brazil (criada em 1892 por iniciativa de Sarah Kalley e outros), South American Evangelical Mission (Argentina) e Regions Beyond Missionary Union (Peru). Após a Conferência de Edimburgo (1910), essas missões vieram a constituir a União Evangélica Sul-Americana (UESA, 1911). Dos seus esforços, surgiu no Brasil a Igreja Cristã Evangélica.
2.2 Igreja Presbiteriana
A IPB alcançou a sua autonomia formal em 1888, com a criação do Sínodo do Brasil. Até então, os presbitérios brasileiros estavam filiados às igrejas norte-americanas, a do norte (PCUSA) e a do sul (PCUS). Quando se organizou o Sínodo, a IPB tinha 60 igrejas, 20 missionários e 12 pastores nacionais. De 1892 a 1903 houve uma séria crise em torno das questões missionária, educativa e maçônica que resultou em cisma, surgindo assim a Igreja Presbiteriana Independente, cujo principal líder foi o Rev. Eduardo Carlos Pereira.
Em 1910 foi criada a Assembléia Geral, sendo eleito seu primeiro moderador o Rev. Álvaro Reis, pastor da I. P. do Rio de Janeiro, por muitos anos a maior igreja evangélica do Brasil (quando Reis faleceu, em 1925, a igreja tinha mais de 2.600 membros). Em 1917, foi firmado com as missões norte-americanas um acordo conhecido como Modus Operandi ou Brazil Plan, mediante o qual os missionários começaram a retirar-se dos presbitérios brasileiros. Até cerca de 1925, a IPB foi a maior denominação evangélica do Brasil, tendo grande crescimento em regiões como o leste de Minas Gerais. Seus principais órgãos eram a Revista das Missões Nacionais(1887) e especialmente O Puritano (1899).
2.3 Igreja Presbiteriana Independente
A IPI surgiu em 1903 como uma denominação inteiramente nacional, sem qualquer vínculo com igrejas estrangeiras. Resultou do projeto nacionalista do Rev. Eduardo Carlos Pereira (1856-1923). Em 1907, a IPI tinha 56 igrejas e 4.200 membros comungantes. Fundou um seminário em São Paulo. Em 1908 foi instalado o Sínodo, inicialmente com três presbitérios. O Estandarte, fundado em 1893, era o seu periódico oficial. Após o Congresso do Panamá (1916), a IPI aproximou-se da IPB e das outras igrejas evangélicas, tendo participado de muitos projetos cooperativos daquela época.
2.4 Igreja Metodista
A Conferência Anual Brasileira foi organizada no Rio de Janeiro em 15-09-1886 pelo bispo John C. Granbery, enviado pela Igreja Metodista Episcopal do Sul. Tinha apenas três missionários, James L. Kennedy, John W. Tarboux e Hugh C. Tucker, sendo a menor conferência anual já criada na história do metodismo. Em 1899, a I.M.E. do Norte transferiu seu trabalho no Rio Grande do Sul para a Conferência Anual. Em 1910 e 1919 surgiram outras duas conferências, passando a existir três: norte, sul e centro.
A Junta de Nashville interferia na vida da igreja de modo indevido, segundo os brasileiros, culminando com a insistência em nomear o presidente do Colégio Granbery (1917). Isso fez crescer o movimento pelo sustento próprio, liderado por Guaracy Silveira. Em 1930 a I.M.E. do Sul cedeu a autonomia desejada. No dia 02-09-1930, na Igreja Metodista Central de São Paulo, foi organizada a Igreja Metodista do Brasil. O primeiro bispo eleito foi o velho missionário John William Tarboux.
2.5 Igreja Batista
A Convenção Batista Brasileira foi organizada no dia 24-06-1907 na Primeira Igreja Batista da Bahia (Salvador), quando 43 delegados, representando 39 igrejas, aprovaram a “Constituição Provisória das Igrejas Batistas do Brasil”. A partir dessa época, a Igreja Batista passou a ter acentuado crescimento em relação às outras denominações tradicionais.
Na década de 1920, surgiu a chamada “questão radical”. Os líderes batistas do nordeste apresentaram um memorial aos missionários (1922) e um manifesto à Convenção (1925) reivindicando maior participação nas decisões, principalmente na área financeira. Não atendidos, mais tarde organizaram-se como uma facção separada da Convenção e da Junta de Missões. As bases de cooperação entre a igreja brasileira e a Junta de Richmond voltaram a ser discutidas em 1936 e 1957.
2.6 Igreja Luterana
O Sínodo Rio-Grandense surgiu em 1886. Posteriormente, surgiram outros sínodos autônomos: o Sínodo da Caixa de Deus ou “Igreja Luterana” (1905), com forte ênfase confessional; o Sínodo Evangélico de Santa Catarina e Paraná (1911) e o Sínodo Brasil Central (1912). O Sínodo Rio-Grandense, ligado à Igreja Territorial da Prússia, filiou-se à Federação Alemã das Igrejas Evangélicas em 1929. Em 1932, o Sínodo Luterano também se filiou à federação e começou a aproximar-se dos outros sínodos. Em 1939, o Estado Novo (governo de Getúlio Vargas) exigiu que toda pregação pública fosse feita em português.
2.7 Igreja Episcopal
Uma Convocação especial reunida em Porto Alegre em 30-05-1898 definiu a relação formal entre a missão e a Igreja Episcopal dos Estados Unidos, elegendo Lucien Lee Kinsolving como o primeiro bispo residente da igreja brasileira. Kinsolving foi sagrado bispo em Nova York em 06-01-1899, sendo o único bispo episcopal no Brasil até 1925.
3. Segundo período (1930-1964)
Nesse período, que vai do Estado Novo de Getúlio Vargas até o início do regime militar em 1964, as igrejas protestantes em sua maior parte já haviam se tornado independentes das suas igrejas-mães estrangeiras. Nessas décadas, a situação relativa dos diferentes grupos sofreu uma alteração radical, com o acelerado crescimento das igrejas pentecostais, que ultrapassaram em muito as denominações históricas.
Os estudiosos falam em três ondas do pentecostalismo brasileiro: (a) Décadas de 1910-1940: chegada simultânea da Congregação Cristã no Brasil e da Assembléia de Deus, que dominaram o campo pentecostal por 40 anos; (b) Décadas de 1950-1960: o campo pentecostal se fragmentou, surgindo novos grupos – Evangelho Quadrangular, Brasil Para Cristo, Deus é Amor e muitos outros (contexto paulista); (c) Anos 70 e 80: surge o neopentecostalismo – Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus e outras (contexto carioca). Vejamos os principais grupos das duas primeiras “ondas” pentecostais:
(a) Congregação Cristã no Brasil: foi fundada pelo italiano Luigi Francescon (1866-1964). Radicado em Chicago, foi membro da Igreja Presbiteriana Italiana e aderiu ao pentecostalismo em 1907. Em 1910 (março-setembro) visitou o Brasil e iniciou as primeiras igrejas em Santo Antonio da Platina (PR) e São Paulo, entre imigrantes italianos. Veio 11 vezes ao Brasil até 1948. Em 1940, o movimento tinha 305 “casas de oração” e dez anos mais tarde 815.
(b) Assembléia de Deus: a Assembléia de Deus brasileira foi fundada pelos suecos Daniel Berg (1885-1963) e Gunnar Vingren (1879-1933). Originalmente batistas, abraçaram o pentecostalismo em 1909 nos Estados Unidos. Conheceram-se numa conferência pentecostal em Chicago. Assim como Luigi Francescon, Berg foi influenciado pelo pastor batista William H. Durham, que participou do avivamento de Los Angeles (1906). Sentindo-se chamados para trabalhar no Brasil, chegaram a Belém em novembro de 1910. Seus primeiros adeptos foram membros de uma igreja batista com a qual colaboraram.
(c) Igreja do Evangelho Quadrangular: foi fundada nos Estados Unidos pela evangelista Aimee Semple McPherson (1890-1944). O missionário Harold Williams fundou a primeira IEQ do Brasil em novembro de 1951, em São João da Boa Vista, São Paulo. Em 1953 teve início a Cruzada Nacional de Evangelização, sendo Raymond Boatright o principal evangelista. A igreja enfatiza quatro aspectos do ministério de Cristo: aquele que salva, batiza com o Espírito Santo, cura e virá outra vez. As mulheres podem exercer o ministério pastoral.
(d) Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil Para Cristo: foi fundada por Manoel de Mello, um evangelista da Assembléia de Deus que depois tornou-se pastor da IEQ. Separou-se da Cruzada Nacional de Evangelização em 1956, organizando a campanha “O Brasil para Cristo,” da qual surgiu a igreja. Filiou-se ao Conselho Mundial de Igrejas em 1969 e desligou-se em 1986. Em 1979 inaugurou seu grande templo no bairro da Água Branca, em São Paulo, sendo orador oficial Philip Potter, secretário-geral do Conselho Mundial de Igrejas. Na inauguração, esteve presente o cardeal arcebispo de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns. Manoel de Mello morreu em 1990.
Quanto às denominações históricas, destacamos alguns aspectos de sua trajetória nesse novo período:
3.1 Congregacional
Os congregacionais se uniram à Igreja Cristã Evangélica em 1942, formando a União das Igrejas Congregacionais e Cristãs do Brasil. Separaram-se em 1969, tomando o nome de União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil. A outra ala dividiu-se em duas, a Igreja Cristã Evangélica no Brasil (Anápolis) e a Igreja Cristã Evangélica do Brasil (São Paulo), que mais tarde se uniram. O crescimento desses grupos foi pequeno, representando uma parcela cada vez menor do protestantismo brasileiro.
3.2 Presbiteriana
Com a nova Constituição da Igreja, aprovada em 1937, foi criado o Supremo Concílio da IPB. Um novo desafio para a igreja foi como posicionar-se em relação aos novos organismos ecumênicos que estavam se formando. Em 1948, Samuel Rizzo representou a IPB na Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas em Amsterdã. No ano seguinte, a igreja optou pela “equidistância” entre o CMI e o Concílio Internacional de Igrejas Cristãs, do líder fundamentalista norte-americano Carl McIntire. Em 1962, o Supremo Concílio aprovou o “Pronunciamento Social da IPB”.
Entre os jovens, surgiu um questionamento da posição conservadora da igreja. O jornal Mocidade foi lançado em 1944 e dois anos depois Billy Gammon tornou-se a secretária nacional da mocidade. Até 1958 o número de UMPs cresceu de 150 para 600, com 17 mil membros. O Rev. M. Richard Shaull veio ao Brasil trabalhar entre os universitários. Em 1953 tornou-se professor do Seminário de Campinas e começou a cooperar com o Departamento de Mocidade e a União Cristã de Estudantes do Brasil (UCEB). Tornou-se uma voz influente na mocidade evangélica brasileira. Em 1962, o Supremo Concílio reestruturou o Departamento de Mocidade, tirando sua autonomia.
Nos anos 50, Israel Gueiros, pastor da 1ª I. P. de Recife e ligado ao Concílio Internacional de Igrejas Cristãs, liderou uma campanha contra o Seminário do Norte sob a acusação de modernismo. Fundou outro seminário e foi deposto pelo Presbitério de Pernambuco em julho de 1956. Em 21 de setembro foi organizada a Igreja Presbiteriana Fundamentalista do Brasil com quatro igrejas locais (incluindo elementos batistas e congregacionais), que formaram um presbitério com 1800 membros.
3.3 Presbiteriana Independente
A partir de 1930, surgiu um movimento de intelectuais (entre eles o Rev. Eduardo Pereira de Magalhães, neto de Eduardo Carlos Pereira) que pretendia reformar a liturgia, certos costumes eclesiásticos e até mesmo a Confissão de Fé. A questão eclodiu no Sínodo de 1938. Outro grupo organizou a Liga Conservadora, liderada pelo Rev. Bento Ferraz. A elite liberal retirou-se da IPI em 1942 e formou a Igreja Cristã de São Paulo. Em 1957 foi criado o Supremo Concílio da IPI, com três sínodos, dez presbitérios, 189 igrejas locais e 105 pastores.
Em 1940, os membros da Liga Conservadora fundaram a Igreja Presbiteriana Conservadora, que em 1957, contava com mais de vinte igrejas, em quatro estados, e tinha um seminário. Seu órgão oficial era O Presbiteriano Conservador. Filiou-se à Aliança Latino-Americana de Igrejas Cristãs e à Confederação de Igreja Evangélicas Fundamentalistas do Brasil.
3.4 Metodista
O primeiro bispo metodista brasileiro foi César Dacorso Filho (1891-1966), eleito em 1934, que por doze anos (1936-1948) foi o único bispo da Igreja. A Igreja Metodista foi a primeira denominação brasileira a filiar-se ao Conselho Mundial de Igrejas, em 1942. Seu órgão oficial era O Expositor Cristão. O crescimento dessa denominação foi pequeno, sendo uma de suas principais ênfases a educação.
3.5 Luterana
Em 1949 os quatro sínodos luteranos organizaram-se em Federação Sinodal, a Igreja Luterana propriamente dita. No ano seguinte, a igreja solicitou admissão ao Conselho Mundial de Igrejas e em 1954 adotou o nome de Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB). A Igreja Luterana filiou-se à Confederação Evangélica do Brasil em 1959. Foi nesse período que a igreja se nacionalizou, deixando de estar voltada apenas para o seu grupo étnico original.
3.6 Episcopal
O primeiro bispo brasileiro foi Athalício Theodoro Pithan, sagrado em 21-04-1940. Em abril de 1952, foi instalado o Sínodo da Igreja Episcopal Brasileira, contando com três bispos (Athalício T. Pithan, Luís Chester Melcher e Egmont Machado Krischke). Em 25-04-1965 a Igreja Episcopal do Brasil obteve da igreja-mãe a sua plena emancipação administrativa e passou a ser uma província autônoma da Comunhão Anglicana. Logo em seguida, filiou-se ao CMI.
4. Terceiro período (1964-2000)
Dois eventos de grande impacto marcaram o início deste período: (a) O Concílio Vaticano II (1962-65), que assinalou a abertura da Igreja Católica para os protestantes (“irmãos separados”) e revelou novas concepções sobre o culto, a missão da igreja e a relação com a sociedade. O ecumenismo tornou-se alvo de muitas controvérsias. (b) O movimento de 1964 e o regime militar. Na realidade, esse período foi marcado pelo surgimento de ditaduras militares e movimentos de esquerda em toda a América Latina. Na área religiosa, um dos resultados foi o surgimento da Teologia da Libertação. Vejamos alguns eventos desse período conturbado:
4.1 Igreja Presbiteriana
Em 1962, a Missão Brasil Central (UPCUSA) propôs-se a entregar à Igreja toda a sua obra evangelística, médica e educacional. Em 1972, a IPB rompeu com a Missão Brasil Central, sendo uma das possíveis causas a adoção da Confissão de 1967 pela Igreja Presbiteriana Unida dos Estados Unidos. Em 1973, a IPB rompeu suas relações com essa denominação (criada em 1958) e firmou novo convênio com a missão da Igreja Presbiteriana do Sul (PCUS).
O Supremo Concílio de Fortaleza (1966) marcou o início da administração do Rev. Boanerges Ribeiro, que foi reeleito presidente em 1970 e 1974. Nesse período, a maioria conservadora empreendeu forte luta contra o liberalismo teológico, o ecumenismo e a renovação carismática. Foi uma época de forte confrontação, com muitos processos contra pastores, concílios e igrejas locais. No entanto, o período também testemunhou crescimento na área de missões. A IPB expandiu o seu trabalho na Amazônia e em alguns países vizinhos, como o Paraguai e a Bolívia.
Com o passar dos anos, surgiram alguns grupos dissidentes, como o Presbitério de São Paulo e a Aliança de Igrejas Reformadas (1974), e a Federação Nacional de Igrejas Presbiterianas (FENIP), organizada em Atibaia, em setembro de 1978. Esta federação eventualmente constituiu-se em uma nova denominação, a Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, que possuindo uma orientação teológica fortemente progressista. Em 1999, faleceu um de seus líderes mais conhecidos, o Rev. Jaime Wright, que foi muito atuante na área de direitos humanos.
4.2 Igreja Presbiteriana Independente
Com uma postura inicialmente menos rígida que a IPB, a partir de 1972 a IPI tornou-se mais inflexível quanto ao ecumenismo e à renovação carismática. Em 1978, essa denominação admitiu aos seus presbitérios os três primeiros missionários estrangeiros da sua história, Richard Irwin, Albert James Reasoner e Gordon S. Trew, que antes colaboravam com a IPB.
Em 1973, um segmento da IPI separou-se para formar a Igreja Presbiteriana Independente Renovada, que depois se uniu a um grupo semelhante egresso da IPB, formando a Igreja Presbiteriana Renovada, de orientação carismática.
Nos últimos anos, a IPI tem abraçado uma postura teológica mais aberta, estreitando os seus laços com a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos e aceitando o ministério feminino. Há alguns anos, um documento denominadoOrdenações Litúrgicas produziu tantas controvérsias que precisou ter a sua aplicação suspensa pela igreja.
4.3 Igreja Batista
Acentuadamente conservadora nas áreas de teologia e política, a Convenção Batista Brasileira tem dado grande ênfase à obra missionária. Nos anos 60 e 70 foram realizadas grandes campanhas evangelísticas. Em 1960, Billy Graham pregou no Maracanã durante o X Congresso da Aliança Batista Mundial. O Pr. João Filson Soren (da 1ª Igreja Batista do Rio) foi eleito presidente da Aliança. Em 1965, foi realizada a Campanha Nacional de Evangelização, como uma espécie de resposta ao golpe de 1964. Seu tema foi “Cristo, a Única Esperança”, implicando que as soluções meramente políticas eram insuficientes. O coordenador da campanha foi o Pr. Rubens Lopes (I. B. Vila Mariana). Em 1967-1970 houve a Campanha das Américas e, em 1974, a Cruzada de Billy Graham no Rio de Janeiro. Seu presidente foi o Pr. Nilson do Amaral Fanini. Em 1978-1980 foi realizada a Campanha Nacional de Evangelização.
O grande ímpeto evangelístico explica o acentuado crescimento da Convenção Batista Brasileira, que no ano 2000 contava com mais de 1,5 milhão de membros. A Convenção também tem realizado um amplo trabalho missionário no exterior, com mais de 500 missionários em 52 países. Outros grupos batistas expressivos são a Igreja Batista Nacional (renovada), Igreja Batista Regular e Igreja Batista Independente.
4.4 Igreja Metodista
No início dos anos 60, Nathanael Inocêncio do Nascimento, reitor da Faculdade de Teologia de Rudge Ramos, liderou o “esquema” nacionalista que visava substituir os líderes missionários do Gabinete Geral por brasileiros (saíram Robert Davis e Duncan A. Reily e entraram Almir dos Santos e Omar Daibert, futuros bispos).
Os universitários e estudantes de teologia pleiteavam uma igreja mais voltada para a ação social e a política. A ênfase na justiça social dominou a Junta Geral de Ação Social (Robert Davis, Almir dos Santos) e a Faculdade de Teologia. Dom Helder Câmara paraninfou a turma de 1967. No ano seguinte, uma greve levou ao fechamento da Faculdade de Teologia e à sua reestruturação.
Nos anos 70 a IMB investiu na educação superior. No campus da antiga Faculdade de Teologia surgiu o Instituto Metodista de Ensino Superior e em 1975 o Instituto Piracicabano (fundado em 1881) foi transformado em Universidade Metodista de Piracicaba. Em 1982 foi elaborado o Plano Nacional de Educação Metodista, cuja fundamentação deu ênfase ao conceito do Reino de Deus e à teologia da libertação. O movimento carismático também encontrou acolhida em muitas comunidades metodistas.
4.5 Igreja Luterana
Em 1968, os quatro sínodos, originalmente independentes um do outro, integraram-se em definitivo na IECLB, aceitando uma nova constituição. No VII Concílio Geral (outubro de 1970) foi aprovado unanimemente o “Manifesto de Curitiba”, contendo o posicionamento político-social da igreja. Esse manifesto foi entregue ao presidente Emílio Garrastazu Médici por três pastores. Em 1975 entrou em vigor a reforma do currículo da faculdade de teologia de São Leopoldo, refletindo as prioridades da igreja. A Igreja Evangélica Luterana, ligada ao Sínodo de Missouri, é mais conservadora que a IECLB.
As últimas décadas do século 20 testemunharam um fracionamento ainda maior do protestantismo brasileiro, com o surgimento de muitos grupos neopentecostais. Dentre esses grupos, destacam-se a Igreja Deus é Amor e especialmente a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), o maior fenômeno religioso contemporâneo em nosso país. Vejamos alguns dados dessas igrejas:
(a) Igreja Deus é Amor
Seu fundador é David Miranda (nascido em 1936), filho de um agricultor do Paraná. Vindo para São Paulo, converteu-se numa pequena igreja pentecostal e em 1962 fundou sua igreja em Vila Maria. Logo transferiu-se para o centro da cidade (Praça João Mendes). Em 1979, foi adquirida a “sede mundial” na Baixada do Glicério, o maior templo evangélico do Brasil, com capacidade para dez mil pessoas. Em 1991 a igreja afirmava ter 5.458 templos, 15.755 obreiros e 581 horas diárias em rádios, bem como estar presente em 17 países (principalmente no Paraguai, Uruguai e Argentina). A Igreja Deus é Amor dá preferência exclusiva ao uso do rádio como meio de divulgação, não se utilizando da televisão.
(b) Igreja Universal do Reino de Deus
Foi fundada por Edir Macedo (nascido em 1944), filho de um comerciante fluminense. Macedo trabalhou por 16 anos na Loteria do Estado (subiu de contínuo para um posto administrativo). De origem católica, ingressou na Igreja de Nova Vida na adolescência. Deixou essa igreja para iniciar a sua própria, inicialmente denominada Igreja da Bênção. Em 1977 deixou o emprego público para dedicar-se ao trabalho religioso. Nesse mesmo ano surgiu o nome IURD e o primeiro programa de rádio. Macedo viveu nos EUA de 1986 a 1989. Voltando ao Brasil, transferiu a sede da igreja para São Paulo e adquiriu a Rede Record. Em 1990 a IURD elegeu três deputados federais. Macedo esteve preso por doze dias em 1992, sob a acusação de estelionato, charlatanismo e curandeirismo. A IURD também investe maciçamente no exterior, atuando em mais de 70 países.
Outros conhecidos grupos neopentecostais são a Igreja Renascer em Cristo (do “apóstolo” Estevam Hernandes), a Igreja Internacional da Graça de Deus (do pastor Romildo Soares, cunhado de Edir Macedo), a Igreja Sara Nossa Terra e as Comunidades Evangélicas.
Conclusão
A história do protestantismo brasileiro no período republicano é uma história de notável crescimento e crescente visibilidade social. Nesse longo período, as igrejas evangélicas deram importantes contribuições a indivíduos, famílias e à sociedade nas áreas evangelística, educacional e ética. Infelizmente, é também uma história de lamentáveis divisões e, particularmente nos últimos anos, de um testemunho questionável e valores distorcidos. Trabalhemos e oremos para que a fé evangélica produza em nosso país os seus melhores frutos no século 21.
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